sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Speculum imperfectus



Speculum imperfectus


As verdades, diferentes na aparência, são como inúmeras folhas que parecem diferentes e estão na mesma árvore. Gandhi


Quando eu tinha apenas 13 anos descobri uma locadora de livros próxima a minha casa. Eram outros tempos, a Internet ainda nem existia, os livros eram caros, eu, pobre, e as poucas bibliotecas possuíam principalmente acervo técnico. Aquele “achado” era como um oásis no deserto, algo como descobrir o Google nos dias de hoje.

De início aluguei a polêmica A Terceira Visão de Lobsang Rampa e Uma Breve História do Tempo de Stephen Hawking. Li as duas com o mesmo fascínio. Desde cedo nunca estabeleci uma fronteira entre ciência e espiritualidade. Aquele foi o início da minha senda espiritual, mas não pude deixar de sentir uma grande angústia ao me dar conta mais tarde que cada livro não me aproximava de respostas definitivas, ao invés disso, surgiam novos questionamentos nunca feitos antes. À medida que se acumulava o conhecimento, aumentava também a consciência de minha ignorância e o desconforto de saber que por mais que eu me esforçasse, eu nunca conseguiria respostas definitivas.

Quem nunca sentiu essa sensação de impotência ao entrar em uma grande biblioteca? Nós, ocidentais, geralmente iniciamos nossa senda espiritual pela via intelectual, pela busca de respostas objetivas ou de um sistema perfeito que responda de modo definitivo todas as grandes questões da existência humana. Esse sistema pode ser uma religião, uma irmandade ou um simples conjunto de crenças. É um caminho muito útil e profícuo, mas que sempre se deparará com o paradoxo da ignorância que cresce na medida do conhecimento. Quanto maior o país do conhecimento, mais amplas serão as fronteiras da nossa ignorância.

O buscador espiritual chega a um limite de esgotamento intelectual, ou melhor, frustra-se ao ver que a intelectualidade não lhe preenche a alma. Não alcançando respostas definitivas, essa angústia é uma armadilha que bloqueia sua caminhada. Além disso, a espiritualidade humana parece um campo confuso para mentes adestradas numa cultura objetivista e materialista. A linguagem das ciências, mesmo considerando seus diversos campos, parte de códigos comuns, sobretudo baseados em concepções lógicas e matemáticas. Mesmo sendo dinâmico e mutável, existe um paradigma científico dominante que estabelece as exigências para que algo seja considerado científico em dado momento e contexto. Quem estudou metodologia científica conhece bem esses protocolos.

Ao invés disso, as manifestações da espiritualidade humana, quando observadas na sua totalidade, parecem uma miscelânea de conceitos não conectados, de sistemas que não dialogam entre si e que não possuem pressupostos comuns. Cada religião parece ter seu próprio paradigma, sua própria cosmologia, ontologia, teologia e sistema de símbolos. O buscador espiritual depara-se com esse labirinto. São tantos segmentos, teorias, terminologias que nos perguntamos qual é a melhor ou mais verdadeira. 

Essa sensação de estar diante do caos ocorre pelo esforço que faz nossa mente, adestrada pelo materialismo, ao tentar enquadrar a espiritualidade dentro desse paradigma, buscando objetivar o que é de natureza subjetiva e transcendente. Diante do aparente caos, corre-se o risco de tomar posturas extremas como negar qualquer espiritualidade por considerá-las inconsistentes ou aderir radicalmente a um único sistema de crença alimentando a ilusão pretensiosa de possuir a verdade absoluta.

Perguntas como “qual a religião verdadeira?” ou a tentativa de adquirir uma cultura enciclopédica sobre todas as escolas espiritualistas e religiões é apenas reflexo desse pragmatismo objetivante que foi naturalizado como uma forma de ver o mundo. Impõem-se como um filtro condicionando o nosso olhar. Livrar-se desse filtro é um dos grandes desafios, sobretudo para nós ocidentais. Então fica claro que a mais maléfica influência que o materialismo exerce sobre nós não é simplesmente a negação do espírito, mas a imposição de um sistema de leitura do mundo que ofusca mesmo aqueles que crêem e buscam a espiritualidade.

Sistemas de crença podem ser ferramentas úteis, mas podem tornar-se facilmente prisões que impedem a expansão da consciência. É uma linha muito sutil. O próprio materialismo é um sistema de crença muito útil para a dimensão prática e objetiva da vida, que pode tornar-se rapidamente tóxico e limitante para lidar com o aspecto espiritual da existência ou com nossa própria subjetividade. Convém ressaltar que mesmo a mais rigorosa ciência materialista não garante verdades absolutas, trata-se apenas de um sistema de códigos para enquadrar e descrever os fenômenos, sendo limitado para captar a amplitude da realidade. Não se trata apenas de um ponto de vista pessoal, mas da opinião daquele que talvez seja a figura mais importante da ciência moderna, Albert Einstein ao afirmar que:

(...) Os conceitos físicos são livres criações do espírito humano e não são, como se poderia acreditar, determinados exclusivamente pelo mundo exterior. No esforço que fazemos para compreender o mundo, assemelhamo-nos um pouco ao homem que tenta entender o mecanismo de um relógio fechado. Ele vê o mostrador e os ponteiros em movimento, ouve o tique-taque, mas não tem como abrir o estojo. Se for engenhoso, poderá formar alguma imagem do mecanismo que ele tornará responsável por tudo o que observa, mas nunca estará seguro de que sua imagem seja a única capaz de explicar suas observações. Nunca estará em condições de comparar sua imagem com o mecanismo real, e nem mesmo pode se representar a possibilidade ou o significado de uma tal comparação”

Números e leis científicas são apenas elucubrações úteis, mas que não abarcam a essência das coisas. A história dá inúmeros exemplos de que os mesmos são imprecisos e até mesmo equivocados e se isso é verdade para as coisas materiais é ainda muito mais para as espirituais. Muitos espiritualistas apegam-se ingenuamente a um sistema de crenças, conceitos e explicações como se fossem verdades absolutas ignorando que a realidade não cabe em nossos sistemas. O sectarismo e o radicalismo são apenas uma fuga diante da nossa incapacidade de compreender o incognoscível.

Estava no limite desse esgotamento intelectual, arriscando-me nas fronteiras simplistas e arrogantes da descrença ou adesão extrema a um sistema de crença, opções equivalentes, saídas fáceis. A senda intelectual compara-se a uma mosca que bate contra o vidro em direção à luz. Ela busca com sincera vontade a luz, vai em sua direção e não consegue enxergar e entender porquê não pode ir adiante. Bate virilmente contra essa barreira invisível, até desfalecer. Foi programada para andar em uma única direção e não entende que deve abandonar a luz, dar a volta pelo lado escuro para continuar sua caminhada.

A busca obstinada pela luz é a senda objetiva, científica, masculina, ativa, da projeção para fora de si, da dominação do mundo e da imposição de nossas crenças. A volta pela escuridão é o mergulho na subjetividade, no self, no inconsciente profundo, no feminino, fecundo e receptivo de nossas almas. O vidro é a fronteira do paradigma e o limite do ego, necessário na evolução, mas que deve ser abandonado em determinado ponto para seguirmos adiante. O caminho para seguir adiante é voltar para a escuridão, para dentro de si mesmo, o quê não significa abandonar explicações lógicas ou o conhecimento objetivo, mas passar a desenvolver um outro olhar sobre o mundo através do mergulho no eu. Fechemos os olhos da matéria e deixemo-nos guiar por outros sentidos.

Tudo mudou quando conheci o misterioso Tao Te Ching de Lao Tsé. Sua obscuridade inescrutável e misteriosa, sua negação radical da objetividade, a total passividade e o poder do fecundo no nada, da não ação, do poder de fazer sem nada fazer. É uma ruptura radical e chocante com o objetivismo, uma revolucionária e ancestral mudança de paradigma. Não era mais um sistema alternativo, era o antissistema, o esvaziamento do desumanizante e alienante excesso intelectual que corrói a intuição e a criatividade. Sem dúvida, uma das maiores obras da humanidade:

CAPÍTULO 47

Sem sair da porta

Pode-se conhecer o mundo

Sem ver através da janela

Pode-se conhecer o Caminho do céu

Quanto mais longe saímos

Tanto menos conhecemos

Por isso, o Homem Sagrado

Conhece sem caminhar

Reconhece sem ver

Realiza sem agir

Ao trilhar o caminho da meditação e do autoconhecimento, começamos a sentir insights de uma realidade que não pode ser expressa por ser superior e transcendente. “Aquilo que pode ser dito não é o Tao”. Porém é possível expressar algumas pistas que apontam a direção para alcançar essa realidade que na condição humana só pode ser sentida, mas nunca objetificada. Essa é a função dos sistemas de crença, eles não devem ser um fim em si mesmo, mas o meio para o fim maior que não está contido em seus códigos e símbolos.

As grandes escolas espiritualistas apontam para essa realidade essencial, primordial e superior na qual a vida material é apenas uma manifestação parcial, limitada e imperfeita. Mens Agitat Molen (O espírito move a matéria), ele preexiste a tudo e determina todas as coisas, de tal forma que todas as coisas que se veem são feitas de coisas que não se veem. Tentar traduzi-la é como explicar a luz e as cores a um cego de nascença.

No entanto, existem mecanismos que nos conduzem às portas da percepção dessa realidade transcendente. Cada sistema de crenças possui suas chaves e elementos simbólicos que funcionam como uma espécie de catalizador psíquico espiritual, desconectando-nos da realidade objetiva e estabelecendo o contato com o espírito através da nossa subjetividade. As artes cumprem essa função, mas as grandes escolas espiritualistas desenvolveram técnicas meditativas e sistemas simbólicos muito avançados.

Esses símbolos podem ser representações gráficas enigmáticas, koans, músicas, parábolas, representações propositadamente não objetivas. Diferentemente de uma letra ou número que possui um significado único de preciso, a linguagem simbólica é um elemento vivo que se locupleta através da observação dinâmica de uma individualidade consciente. O seu significado evolui na interação com o observador, na realidade ele funciona como um espelho da nossa subjetividade alcançado dimensões ocultas da nossa consciência. Carl Gustav Jung estudou o tema com profundidade e foi beber na fonte do misticismo oriental para elaborar sua teoria dos arquétipos e do inconsciente coletivo.

Nem todos os sistemas de crença oferecem um acervo simbólico consistente e capaz de promover essa percepção. As grandes correntes místicas e espiritualistas no geral oferecem sistemas excelentes e milenares, mas nem tudo o que se vê nos dias de hoje é profundo, sobretudo diante da banalização e mercantilização da espiritualidade. Porém, entre as grandes escolas, não faz o mínimo sentido questionar qual a verdadeira, porque todas são folhas da mesma árvore, como enfatizamos através da citação de Gandhi. As muitas verdades são um espelho imperfeito daquilo que não pode ser expresso.

Isso nos faz lembrar a famosa lenda dos cegos que tentam descrever um elefante. Cada um toca uma parte do corpo do elefante, a perna, o rabo, a orelha, a tromba. Depois ficam discutindo entre si sobre como realmente é um elefante. Não chegam a um consenso, cada um acredita ter razão sobre os demais. Todos estão parcialmente certos, são verdades aparentemente diferentes, todas úteis, mas nenhuma fiel. Não se trata do relativismo que nega a existência de qualquer verdade, mas sim de uma verdade transcendente e objetivamente inacessível, como o relógio fechado de Einstein.

É certo também que conforme a nossa organização psíquica, aptidões e bagagem espiritual teremos mais afinidade com determinado sistema de crença. Adquiramos cultura espiritualista, é bom e útil buscar e conhecer as opções, mas, para usufruir realmente é preciso dedicação e aprofundamento que pode levar uma vida o quê torna-se impossível se não escolhermos uma senda e ficarmos apenas como abelhas curiosas que querem possuir todas as flores do jardim, reflexo da ansiedade e utilitarismo de uma sociedade materialista.

Espero que estas palavras ajudem na busca de novos insights, ao invés de permanecermos como moscas batendo contra o vidro. Que possamos encontrar o caminho de volta para nós mesmos.