sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Eventos espíritas pagos ou gratuitos: elitização do movimento espírita brasileiro?


Há uma dificuldade ao tratar de temas polêmicos, porque para alguns parece que somos movidos pelo espírito de discórdia. Esse é de fato um risco aos que se encarregam da árdua tarefa de colocar o dedo na ferida, pois geralmente preferimos esconder nossas mazelas. Algumas críticas são mesmo ressentidas e pesadas, por isso devemos redobrar a vigilância no momento de fazê-lo, mas, ao mesmo tempo não devemos ter medo de ferir algumas suscetibilidades por falar o que acreditamos ser justo e necessário.
Sempre que alguém faz alguma crítica, ouvimos comentários como: - meu irmão, “vamos deixar disso”, pensemos em Jesus, sejamos humildes, o amor é mais importante e todos somos imperfeitos. Criticar aos que criticam é uma atitude incoerente, desse jeito eu estou fazendo aquilo que condeno. Pensando em Jesus lembro-me que ele criticava duramente os fariseus. Criticar judiciosamente não é faltar com a caridade nem significa que esquecemos de fazer a própria reforma íntima. Agora, podemos ou não concordar com a crítica e de fato existem críticas positivas e negativas, críticas mordazes, cruéis e outras embasadas, judiciosas e ponderadas.
Alguns críticos acham que os eventos espíritas deveriam ser gratuitos e que eles estão cada dia mais caros e inacessíveis o que representa uma elitização do movimento espírita. Em minha opinião, certamente não precisamos de eventos luxuosos e caríssimos, mas daí achar que todos podem ser gratuitos é um completo desconhecimento da realidade. Apenas quem trabalha na organização de um evento conhece as dificuldades. É ótimo que um evento seja gratuito, mas quando não for possível, é razoável cobrar um preço acessível, isso desde que os eventos não substituam as atividades regulares do centro espírita que são oferecidas gratuitamente durante o ano todo.
Dizer que o movimento espírita é elitista é algo meio vago e eu concordo em parte com essa afirmação. Não acho que o fato de existir um congresso pago uma vez ao ano torna o movimento elitista. O movimento tem inúmeras instituições, nas áreas nobres e periferias das cidades, que funcionam o ano todo prestando serviços, cursos, palestras. Além disso, hoje, gratuitamente na Internet você encontra todas as palestras, livros, etc. inclusive dos melhores autores e palestrantes. Pelo menos aqui na Paraíba, alguns eventos sempre disponibilizaram entradas sociais ou gratuidade de parte do evento.
O nosso movimento é elitizado por outros aspectos. Primeiro porque somos a “religião” (nos termos do IBGE) do Brasil com maior nível de formação acadêmica e financeira, isso provavelmente se dá pela natureza da doutrina que exige leitura e estudos. A doutrina foi trazida ao Brasil pelas elites intelectuais que falavam francês e que eram aquinhoadas. Não estou dizendo que isso é ruim ou bom, é apenas um fato histórico. É certo que a doutrina atingiu as camadas mais populares, mas ainda predomina essa característica, sobretudo entre aqueles que conduzem o movimento.
Em segundo lugar, por consequência, o pensamento do espírita médio brasileiro é o pensamento pequeno burguês da elite brasileira. Faz a caridade, mas detesta pobre. Gosta de manter as aparências. Venera títulos e posições sociais. É letrada, mas é pobre intelectualmente, pois não tem senso crítico. São conservadores e moralistas. Mas como pode alguém fazer a caridade e detestar pobres? Um exemplo é uma senhora que conheci que fazia muitas ações de caridade, mas não admitiu que sua filha se casasse com um rapaz pobre. Os pobres para ela eram bons para fazer sua caridade, mas não para que dividissem sua sala ou integrassem sua família.
Terceiro, o movimento é conduzido por uma “elite” que frequentemente reproduz esses mesmos valores e que torna-se um filtro ou prisma que dá características muito específicas ao Espiritismo tupiniquim. É um movimento que reproduz a estrutura hierárquica vertical e centralizada da igreja católica, destacando a pregação religiosa, de caráter messiânico e catequético e perseguindo outras iniciativas paralelas, diga-se de passagem, uma perseguição velada que se faz sempre que uma ação independente se destaca no movimento espírita. Já vi eventos sendo boicotados por presidentes de federativas que telefonavam para palestrantes pedindo que eles não participassem de evento A ou B.
Alguns organizadores alegam que os eventos por eles organizados se tornaram muito grandes e, por isso, necessitam de grandes estruturas que frequentemente são os maiores teatros ou centros de convenções das cidades. Isso naturalmente tem um custo e não é baixo. Sabemos que esses eventos geralmente se concentram em períodos e feriados estratégicos como o carnaval. As federativas poderiam estimular a realização de eventos paralelos naquele mesmo período, com os mesmos palestrantes que se alternariam de forma planejada. Isso dividiria o público, exigiria uma estrutura menor, às vezes o próprio centro espírita, resultando em preços mais acessíveis.
Dentro de uma mesma cidade, o evento poderia se dividir em programações paralelas direcionando-se aos mais diversos interesses e níveis de profundidade, dividido entre alguns centros espíritas, ao invés de uma programação centralizada em um único local. Dessa forma, diversas instituições poderiam responsabilizar-se por partes da programação, cada uma dando seu enfoque favorito, mas isso não é feito por quê? Porque existe ciúme entre os eventos, porque não existe integração entre as instituições, porque isso significaria perder poder e controle, significaria dividir os louros, significaria abrir espaço para outros pontos de vista diferentes daquele dominante e esse é um comportamento elitista.
Os megaeventos centralizados, para chamar e atender o gosto do grande público, não ultrapassam o gosto médio que se reflete num certo marasmo e em conteúdos de autoajuda. Viraram congressos de autoajuda adornada de Espiritismo. Mas não deixa de haver alguma relatividade sobre a utilidade que isso tem pra cada um, afinal, as pessoas gostam de autoajuda. Ressaltando, que não tenho nada contra a autoajuda. No início da minha formação li bastante autoajuda e me foi útil, mesmo que tenha suas limitações. O fato é que estamos falando de “congressos espíritas” onde vejo 90% de autoajuda e neurolinguística e 10% de Espiritismo. É interessante, são palestras motivacionais, fazem rir, chorar, “dão IBOPE”, mas os congressos são pobres de reflexão espírita profunda, o quê é mesmo impossível com dimensões tão grandes e um público tão variado.
Também sempre ouvimos a desculpa de que trata-se do caráter consolador do Espiritismo e de que assimilar os conteúdos evangélicos é a coisa mais importante. Certamente precisamos da mensagem evangélica, mas foi o próprio Jesus que sabia que apesar da essência de tudo está no Evangelho, não somos capazes de extrair dele toda a sua profundidade, por isso ele prometeu outro consolador, que é o Espiritismo e não o cristianismo tradicional do qual o nosso movimento se tornou reflexo. O Espiritismo consola não porque diz apenas palavras melífluas e mensagens motivacionais, mas, sobretudo porque toca a inteligência e o entendimento e, para tanto, é preciso discutir mais profundamente os postulados estabelecidos por Allan Kardec.
Se não considerarmos esses aspectos os congressos espíritas continuarão perdendo a sua função e tornando-se apenas eventos sociais.

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